Ainda Estou Aqui
- Giovanna Orcioli
- 18 de nov. de 2024
- 3 min de leitura

Tenho tantos elogios que nem sei por onde começo. Toda a parte técnica desse filme é impecável. Da trilha sonora à direção de arte, o cuidado da produção é traduzido em todos os detalhes, e cada um nos conta, à própria maneira, um pouco mais sobre o contexto ou sobre a família Paiva. É sempre lindo demais ver o formato da sétima arte sendo aproveitado ao máximo, e “Ainda Estou Aqui” é o melhor exemplo desse aproveitamento nos últimos anos – principalmente porque ele é um filme muito bem pensado e situado, sabendo exatamente de onde vem, em que contexto está sendo lançado e aonde quer chegar. Não existe, nem por um frame, a menor dúvida da mensagem da história.
E que história. A forma como ela é contada demonstra total domínio do meio cinematográfico, envolvendo o espectador em tudo. O filme te mostra a presença para te fazer sentir, no coração, a falta. Te encanta para depois te horrorizar. Te faz encarar uma dor imensurável para depois te mostrar o amor que perdurou mesmo assim. E atinge todas essas marcas com perfeição graças a um elenco infinitamente talentoso: a capacidade desses atores de traduzir tamanha brutalidade em gestos e modos de falar tão sutis é excepcional. Uma cena, entre muitas, que me marcou foi o diálogo em que Eunice (Fernanda Torres) conta a Eliana (Luisa Kosovski) que seu pai havia sido levado pelos militares. Um silêncio cortante: sem uma única palavra, a jovem demonstra, exclusivamente em seu olhar, todo o luto já roubado do futuro, de uma notícia que ela sabe que ainda vai receber mais para frente. É devastador.
Não existem caracteres suficientes para descrever, fielmente, a grandiosidade desse elenco: desde os velhos rostos conhecidos até os atores mirins, todos merecem coroas, mas é impossível não destacar Fernanda Torres. Assim como aproximadamente o Brasil inteiro, eu sou apaixonada por essa mulher por um motivo, e a performance dela aqui só reforça todos os elogios que sempre foram direcionados a ela. Uma atriz tem de ser muito excepcional para trazer a personalidade de alguém como Eunice Paiva para a tela, e Fernanda Torres felizmente o faz com muita maestria. Ela sabe traduzir, de forma tão natural que parece até sem esforço, toda a resiliência da mulher que nunca se deu como vencida, que nunca deixou que lhe tirassem o sorriso do rosto. É uma performance que devíamos ser gratos por podermos assistir nas telonas, então, conseguindo o Oscar ou não, ela já venceu. (Dito isso, pessoalmente irei até Los Angeles roubar a estatueta caso anunciem a vencedora errada.)
De modo geral, o maior impacto que esse filme causa é durante os últimos minutos, lembrando o público, da forma mais lúcida possível, de que essa história que vimos no cinema foi a realidade que um Brasil de outra época viveu. É um baita soco para se levar no estômago depois de assistir à crueldade de um sistema que privou o brasileiro até da própria morte — e também do luto da família — durante os 25 anos sem o certificado de óbito de um parente que nunca voltou. Mas é um soco no estômago necessário. Com plena noção do que significa, “Ainda Estou Aqui” corta para os créditos e vai para casa com o espectador como um lembrete: que fique a memória, para que nunca se perca de vista o que não pode voltar a ser.



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